Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Várias coisinhas



Voltei de pequenas férias, após uma parada. Não fui à FLIP conforme havia planejado. Fiquei cansada, mais reclusa e dei meus convites a uma amiga. Mas enquanto não estava lá em Paraty, li duas autoras convidadas para o evento. Um tanto atrasada, fui conferir o texto da Xinran, em seu As boas mulheres da China, edição de bolso da Companhia das Letras. Texto jornalístico e leitura dinâmica. Ótimo livro pra gente ter uma ideia do que é a China recente e a situação da mulher até há pouquíssimo tempo (e imagino que em alguns lugares daquele país, até hoje), o que foi a Revolução Cultural, o governo Mao e quantas vidas foram roubadas pelo Partido. Sobretudo das mulheres. Depois, fui para a Irlanda e li O encontro, da Anne Enright. Lindo o livro. Forte. Dono de uma linguagem expressiva, bastante calcada no coloquial, mas cheia de marcas próprias, como o corte de frases e parágrafos, e repetições de palavras. No meio do romance, achei que ia desengatar da leitura, ficou um pouco cansativo, mas isto foi breve. Anne Enright retoma rápido o ritmo e me encantou no final do livro. Perdi as palestras, mas ganhei duas leituras em uma semana. Agora, quero partir para o Bellatin e seu livro de narrativas breves, Flores, editado pela Cosac-Naify. Mas antes preciso terminar o Manuscrito de Felipa, da Adélia Prado e sua escrita entranhada no cotidiano.




Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Uma imagem para pensar a leitura

Somos, afinal, feitos de histórias.

Domingo, 28 de Junho de 2009

Domingueira para a criançada brincar de poesia

Tela do Volpi


O que é poesia? Para uma menina que um dia me perguntou,


A poesia precisa
de um bocado de tristeza
de alegria
de olhar para a vida
e pensar sobre o mundo
e sentir o mundo
com espanto.

A poesia precisa
do brincar com as palavras
precisas de uma rima
de um pouquinho de dor
e do movimento
da partida e
e da saudade.

A poesia precisa
amarrar o leitor
e o poeta
ser um laço
no íntimo
um nó bem dado
com o fio das palavras.

A poesia precisa
é um eco
encontro
dos sentimentos.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Vinte e quatro horas dentro do meu quarto

Criança, inventei uma dor de barriga. Minha mãe teve que faltar ao trabalho, enganando-se também, talvez cansada e querendo dormir. Se está doente, deitamos juntas. Pelo meio da tarde, já queria sair, o quintal chamava, cheio de sombra e sol. A dor certamente curada. O aperto foi mesmo na hora do almoço, frio na barriga, as meninas da escola todas de mal. Medo de não saber o que poderia acontecer. A dor veio, mas não na barriga. Ou nela mesmo, mas só no nome. Resolvi arriscar, mesmo sabendo que a minha mãe não costumava ceder. Só hoje, vai! Tá doendo muito! E a felicidade duma quarta-feira em casa. Mas, na cama, o dia todo? E a vingança de mãe: ué,não está doente? Fixei os olhos no relógio, com seus ponteiros provocando, lentos. Tempo quase parado, quatro horas, que mais pareciam vinte e quatro. E a dor agora era outra. Castigo de não sair do quarto.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Carmem Borda na domingueira

Imagem do blog de Tom Fernandes


SITIADA

por miles de palabras
que rodean mi cama
mi cuarto
mi casa
me acechan
con sus miles de ojos brillantes
en la mitad de la noche
se alinean escribiendo poemas
tratan de endulzarme

pero sé
que me tienen presa
con suaves cadenas
imposibles de romper
y en las noches
encadenada
me arrostro hasta la ventana
y compruebo
que desde el cielo
también
cuelgan palabras

A poeta Carmem Borda é uruguaia.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Dica de livro: Contos Frios, de Virgílio Piñera


Achei por acaso este livro e o autor, no sebo Avalovara, no bairro de Pinheiros, São Paulo. Procurava um livro de contos e meus olhos encontraram os Contos Frios, deste autor cubano. Comecei a ler ali mesmo e o primeiro conto - A queda - já me chamou a atenção. Pela forma como Piñera trabalha a linguagem, de forma descritiva e ao mesmo tempo poética, pela ironia presente em seu texto e pelo conteúdo na maioria das vezes insólito, que me fez lembrar outro autor que admiro, Julio Cortázar. No início do livro, Virgílio Piñera explica o título: Como a época é de temperaturas muito altas, creio que não cairão mal estes contos frios. O leitor verá, tão logo se defronte com eles, que a frieza é aparente, que o calor é muito, que o autor está bem metido no forno e que, como seus semelhantes, seu corpo e sua alma ardem lindamente no inferno que ele mesmo criou para si.

São frios estes contos porque se limitam a expor os puros fatos. O autor estima que a vida não premia nem castiga, não condena nem salva, ou, para sermos mais exatos, não consegue discernir essas complicadas categorias. Só pode dizer que vive, que não exijam qualificar seus atos, dar-lhes um valor qualquer ou esperar uma justificativa ao final dos seus dias. Na verdade, deixamos correr a pena entusiasmados.


Descrevendo o que acontece, atendo-se ao movimento da vida, os contos de Virgílio Piñera não são nada frios, ao contrário, trazem para o leitor o espanto e a angústia da vida, funções primordiais da literatura. Suas descrições são extremamente pessoais, fazem-nos sentir a cena, representando, em imagens visuais o que sente o narrador tal como escreveu lindamente no prefácio da edição brasileira, José Rodriguez Feo.


Para mim, uma feliz descoberta. Um desses achados especiais.


Para saber um pouco mais sobre Virgílio Piñera: nasceu em Cuba, no porto de Cárdenas, em 4 de agosto de 1912. Estuda Letras e Filosofia na Universidade de Havana e passa a contribuir para várias publicações literárias. Seus contos são pouco lidos em seu país. Na verdade, seu círculo de leitores reduz-se basicamente aos seus amigos. Antes da Revolução, exila-se na Argentina pr doze anos e passa a trabalhar na Embaixada de Cuba, em Buenos Aires. E ali, finalmente, ganha o reconhecimento que nunca teve em seu país de origem. Frequenta um círculo importante de autores portenhos e seus textos passam a ser admirados por escritores de peso como Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, entre outros. Em 1979, Virgílio Piñera falece em Havana.


A edição dos Contos Frios fica por conta da Iluminuras. E a cuidadosa tradução é de Teresa Cristófani Barreto. Acho que você encontra o livro em sebos, nas melhores casas do ramo. É isso aí, boa leitura.

Domingo, 14 de Junho de 2009

Cecília Meireles na domingueira

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
-Em que espelho ficou perdida a minha face?

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

A polêmica do livro na escola: é justo o escritor pagar o pato?

Nas últimas semanas, quem esteve atinado com a polêmica pode ter ficado indignado com as escolhas e compras feitas pelo governo paulista de certos títulos inadequados para alunos do ensino fundamental. Com razão. A escolha foi equivocada. Será que os responsáveis pela compra não leram antes de escolher? O que ocorreu? Descaso? Compra apenas por título? Escolha pela editora? Indicação errada de alguém? Não sabemos, mas o que não podemos é passar a criticar o autor. Joca Terron, um dos que estiveram na berlinda foi duramente criticado por alguns jornalistas em matérias que levavam seu poema (incompleto, diga-se) e que, em sua maioria, mostraram-se bastante tendenciosas, procurando fazer que o leitor tirasse as suas "próprias conclusões". Será que é justo que o escritor pague o pato? Duvido que Joca Terron acredite que o poema em questão seja adequado para crianças do ensino fundamental (mais especificamente, crianças de 9 anos). Aliás, não acha mesmo, ele próprio chegou a afirmar isso. Toda a obra tem um contexto, tem um leitor a que se destina. A boa literatura não deve, nunca, passar por avaliações morais. A indicação do poema de Joca Terron foi um equívoco, mas não podemos, por isso, censurar seu texto. A crítica literária é coisa séria e deve ser feita por especialistas e não por jornalistas e no meio de uma polêmica que é, antes de tudo, política. Cristóvão Tezza viveu situação parecida com a adoção de seus livros em escolas do sul do país. Se quiser ler o que ele pensa sobre isto, clique aqui. E a Ivana Arruda Leite também escreveu sobre isso, aqui.
E só mais um detalhe: precisamos também ter o cuidado de não avaliar mal o programa em que a escolha equivocada se insere, o Ler e Escrever, cujos resultados têm sido excelentes nas classes de alfabetização.

Domingo, 31 de Maio de 2009

Claudia Roquette-Pinto na domingueira

vigia

eu beijo o verso
das pálpebras
no rosto do menino sem sono
estendo o sono
que esgarça
descobre os pés quando o branco
atravessa
(ultrapassa) um globo
e outro tonto
cobertor de fumaça
ainda à margem do incêndio do sonho


Claudia Roquette-Pinto nasceu no Rio de Janeiro, em 1963.

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Duas peças

1.

O umbigo é o começo
do mundo sozinho
É o começo do fora
do frio e da fome
É o início da cólica
da cólera, do colo
E do algodão gelado
embebido, é o amor
É o futuro plantado
num pé de roseira
É o sonho, é o zelo da mãe
É o nó, o avesso, o desejo

O umbigo é o laço.



2.

Eu lembro do anestesista segurando as minhas mãos. Não. Uma das mãos. E de uma voz que dizia, não desista (e eu sinto falta dessa voz, às vezes). O médico. Lembro de uma enfermeira com nome de Dona. E do meu parto ser bem mais que o milésimo. Segundo. Lembro que só seriam mais um ou dois minutos. Lembro de um parto que, de normal, fora tão longo. Lembro do meu médico se equilibrando. E dizendo. Em meus trinta anos, nunca vi um cordão tão curto. Mal conseguindo cortar. O cordão tão pouco, tão perto. Lembro de ver os olhos abertos. Da minha filha. Já solta. Lembro que a achei pequena e que não tinha palavras. Lembro que ela me encarava, estranha. Das entranhas. E lembro que era tudo tão novo, depois do cordão. E do nó pronto para virar umbigo.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Contos de Irmãos recém-saído do forno e um pequeno adendo à nota anterior...


Editado pela Moderna, ilustrado por Eduardo Albini.
Este livro é fruto de uma pesquisa minha sobre contos populares. Ano passado, recebi uma proposta para publicar uma pequena coletânea para crianças. Segui adiante na ideia e aqui está o resultado. O livro faz uma costura entre sete contos originários de Angola, Brasil, Itália, Portugal, Peru, China e Sibéria; procurando mostrar ao leitor o que estas histórias têm comum, o que é universal nelas e, ao mesmo tempo, as diferenças que vão aparecendo nas versões de cada lugar, cultura e época distintos. E todas as histórias têm irmãos como protagonistas.

Domingo, 17 de Maio de 2009

Aos leitores do Pena...uma domingueira diferente

Imagem: Litoral Costa Verde

Estou em Paraty, RJ. Vim dar uma oficina sobre memória e literatura, pelo Museu da Pessoa, para os professores da rede pública, como parte das atividades da FLIPINHA. Esta semana e a passada estão sendo muito corridas, com várias viagens e, claro, vim muito menos ao Pena do que gostaria. Mas como não podia deixar de ser, hoje tem Domingueira. E será um pouco diferente. Convido a todos para uma visita ao portal do Museu da Pessoa. E de lá, sigam para o site do Memórias da Literatura Infantil e Juvenil. Entraram no site? Pois então, visitem os autores entrevistados, conheçam as suas histórias, assistam aos seus vídeos, passeiem pela Linha do Tempo. E se quiserem uma dica, não deixem de ver o depoimento do escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Vocês vão gostar.

Domingo, 10 de Maio de 2009

Humberto Ak'abal na Domingueira


Cada um com sua sombra




Amanhece.


O sol come a neblina

e começa a pintar

caminhos,

árvores,

casinhas,

bichos,

gente...




E pra cada um

faz uma sombra.






Humberto Ak’abal nasceu em Momostenango, Totonicapán, na Guatemala no ano de 1952. Filho e neto de xamã de uma comunidade maia de idioma k’iché, herdou da família a espiritualidade, a tradição, o pensamento e a história de seus antepassados. Atualmente é um dos poetas guatemaltecos mais conhecidos na Europa e América Latina. Para que sua obra esteja ao alcance de todos, ele mesmo traduz seus poemas do k’iche’ para o espanhol. (texto extraído do site Revista On Line.)

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Dica de Site

Está na Folha de hoje. Dica da Noemi Jaffe. Fui lá conferir e achei realmente interessante. Vale a pena a visita. Não deixe de ler os textos de vários autores sobre as mariposas, um quebra-cabeça, caleidoscópio de olhares. E todo o resto, colírio para os olhos de quem brinca com palavras. Então, passe por lá, clicando aqui.

Domingo, 3 de Maio de 2009

Marcos Siscar na Domingueira

TIGELA DE ÁGATE


Você fechou a janela, desceu as escadas e disse em prosa que se sentia bem embaixo, no pátio aberto, perto da porta. Você desceu o lixo, olhou o pássaro, brincou de cabra-cega com as crianças do pátio. Então, pediu-me que servisse a sopa numa tigela de ágate. A morte com dor não vale a sopa numa tigela de ágate. O mundo reduzido ao essencial. Isso a faz morrer de rir. O essencial, você me diz, cabe numa tigela de ágate. O que quis dizer com isso? Que essencial não há, ou muito pouco, que no fundo não importa, ou que de fato está nesta tigela de ágate? Desde então, a dúvida me impede de dizer meu nome. Com a sola dos pés procuro o fundo da terra sob um brejo de taboas. Cada vez que me perguntam que fundo é esse, as entranhas me gelam, a discrepância me invade. Sinto o fundo e ele me abala. Toda uma sismologia. Viajo sem ter vontade. Em cada lugar por onde passo, quero de mim uma nova coragem. Certa vez, você me acenou de longe, ao pé da plataforma, com os olhos vermelhos. Você que nunca chorava. Quis exilar-me em você. E talvez eu fique aqui, nesse boteco de luz amarela, no meio da amazônia, até o fim dos tempos. Mal penso nisso, o galo ainda não cantou, você já se estendeu ao longo do meu corpo, se derramou sobre mim e eu a contive. Você cabe em mim tão completamente. Ouço a sua voz fraca, perdida no percurso da garganta. O poema deve ser escrito com sangue? Pois que o sangue seja vivo, vermelho pêssego, turquesa, esmeralda. Foi então que você perdeu a voz, olhou de lado, fechou-se muda. E sobre as pálpebras cerradas palpitam veias de um sangue veloz. Diga-me: quanto sangue será necessário para aplacar o seu silêncio?


(O roubo do silêncio, 2006)


Marcos Siscar é poeta, tradutor e professor de literatura.

Domingo, 26 de Abril de 2009

Maria Carpi na Domingueira



O Avental


No centro da casa,
uma vertente.
No centro do movimento,
o avental de minha mãe.
As toalhas jamais
sabiam secar-me.
Ali acalmava as mãos
interrompidas de voar.
Ali as lágrimas
e toda a trégua.



(Nos Gerais da Dor)



Maria Carpi nasceu em Guarapé, Estado do Rio Grande do Sul, em 1939. Reside em Porto Alegre.

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Conversa de Hai Kai

Nem som nem vento
no solo da lua
o rastro do astronauta.

Domingo, 19 de Abril de 2009

Hai Kai de Bashô na Domingueira

Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.



Matsuo Bashô

E uma dica, clique aqui e sorteie mais um hai kai. Boa leitura.

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Dica de Leitura


Minha dica é o livro Um espinho de Marfim e outras histórias, de Marina Colasanti. A edição é de bolso, da L&PM. Você conhece essa coleção? É ótima, cheia de obras primas. Mas, vamos ao espinho de marfim: neste livro, Marina traz situações do cotidiano e da vida, com boas pitadas de fantasia e muita dose poética, marcas inconfundíveis de sua escrita e de seu modo de pensar as relações humanas, o feminino, a sexualidade. São contos curtos, em sua maioria. E certeiros. Verdadeiros nocautes, como bem definiu Julio Cortázar a respeito deste gênero literário. Vale a pena a leitura.
E viver junto com Marina a emoção de sua escrita.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Passado Verde

O menino rodeou a mesa e pousou os olhos nos fios dourados que faziam caminhos tortuosos no que ele imaginou ser o xale. Os olhos fixaram-se. Úmidos. O menino sentou e apoiou o queixo sobre a mão esquerda, cerrada. E o dedo indicador direito caminhou certeiro pela madeira, sentindo os vincos da mesa, tropeçando nas irregularidades do que um dia fora tronco. Não importava. Nem que tivesse sido folha. Ou flor. A tal peça seca e leve sobre a mesa, o esqueleto de uma folha e seu passado verde. Vivo. Era agora o xale com os seus fios emaranhados. Era o que o menino queria. Que fosse. Que fosse. O menino e seu dedo e sua vontade sentiam a aspereza e o relevo das linhas. Cravadas na folha. O xale com os fios por cima. Dourados e presos em tranças no cabelo da mãe. Os dois à noite e as histórias de um tempo ainda juntos. O menino embalado.

E chamado pelo som seco de uma folha partida, o menino acordou de seu transe. Suas mãos ainda apertavam pedaços da folha e seus fios emaranhados. Quase dentro, entre seus dedos.