
Achei por acaso este livro e o autor, no sebo Avalovara, no bairro de Pinheiros, São Paulo. Procurava um livro de contos e meus olhos encontraram os Contos Frios, deste autor cubano. Comecei a ler ali mesmo e o primeiro conto - A queda - já me chamou a atenção. Pela forma como Piñera trabalha a linguagem, de forma descritiva e ao mesmo tempo poética, pela ironia presente em seu texto e pelo conteúdo na maioria das vezes insólito, que me fez lembrar outro autor que admiro, Julio Cortázar. No início do livro, Virgílio Piñera explica o título: Como a época é de temperaturas muito altas, creio que não cairão mal estes contos frios. O leitor verá, tão logo se defronte com eles, que a frieza é aparente, que o calor é muito, que o autor está bem metido no forno e que, como seus semelhantes, seu corpo e sua alma ardem lindamente no inferno que ele mesmo criou para si.
São frios estes contos porque se limitam a expor os puros fatos. O autor estima que a vida não premia nem castiga, não condena nem salva, ou, para sermos mais exatos, não consegue discernir essas complicadas categorias. Só pode dizer que vive, que não exijam qualificar seus atos, dar-lhes um valor qualquer ou esperar uma justificativa ao final dos seus dias. Na verdade, deixamos correr a pena entusiasmados.
Descrevendo o que acontece, atendo-se ao movimento da vida, os contos de Virgílio Piñera não são nada frios, ao contrário, trazem para o leitor o espanto e a angústia da vida, funções primordiais da literatura. Suas descrições são extremamente pessoais, fazem-nos sentir a cena, representando, em imagens visuais o que sente o narrador tal como escreveu lindamente no prefácio da edição brasileira, José Rodriguez Feo.
Para mim, uma feliz descoberta. Um desses achados especiais.
Para saber um pouco mais sobre Virgílio Piñera: nasceu em Cuba, no porto de Cárdenas, em 4 de agosto de 1912. Estuda Letras e Filosofia na Universidade de Havana e passa a contribuir para várias publicações literárias. Seus contos são pouco lidos em seu país. Na verdade, seu círculo de leitores reduz-se basicamente aos seus amigos. Antes da Revolução, exila-se na Argentina pr doze anos e passa a trabalhar na Embaixada de Cuba, em Buenos Aires. E ali, finalmente, ganha o reconhecimento que nunca teve em seu país de origem. Frequenta um círculo importante de autores portenhos e seus textos passam a ser admirados por escritores de peso como Jorge Luís Borges, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sábato, entre outros. Em 1979, Virgílio Piñera falece em Havana.
A edição dos Contos Frios fica por conta da Iluminuras. E a cuidadosa tradução é de Teresa Cristófani Barreto. Acho que você encontra o livro em sebos, nas melhores casas do ramo. É isso aí, boa leitura.